
Lula, o Filho do Brasil é um épico dramático político – não partidário.
Por Ronnie Romanini
Escrever sobre o filme que retrata a vida do Presidente mais popular da história do país e, ao mesmo tempo, do Presidente que ainda encontra grande preconceito e rejeição da classe alta, é algo sempre perigoso. Podem acusar o texto de ser pró-Lula, anti-Lula, comunista, reacionário. É importante deixar claro que, assim como o filme faz, a abordagem do Lula político não estará presente aqui.
Dito isso, vamos ao filme. Dirigido por Fábio Barreto (que dirigiu também o filme “O Quatrilho” – indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – e que está hospitalizado em estado grave após um acidente), o filme é uma adaptação a um livro de mesmo nome de Denise Paraná, que o escreveu através de entrevistas com o próprio Lula e seus familiares e amigos. O filme começa com o nascimento de Lula – já longe do pai – e aborda sua infância, adolescência e início de vida política como lider sindical, sem abordar a luta pelas eleições diretas ou a fundação do PT.
Os realizadores do filme acertam em não explorar a miséria de Lula e sua família. As cenas passadas no nordeste são com poucas falas e uma bela fotografia, o suficiente para nos darmos conta da vida que o povo, e não apenas Dona Lindú e filhos, levavam e ainda levam em uma região que muita gente dirá: nem parece Brasil. O filme tem seu mérito ao não tentar fazer uma analise sociólogica sobre a vida de uma mãe solteira na região nordeste com muitos filhos para cuidar, focando apenas na história de um homem que subiu na vida e de sua mãe, que sempre esteve por trás da ascensão do filho.

Glória Pires rouba a cena na primeira metade do filme como Dona Lindú, mãe de Lula.
Dona Lindú, aliás, é a grande figura desse filme, talvez até mais do que Lula. Com uma atuação surpreendente de Glória Pires, Lindú encarna a típica mãe solteira que tem uma família grande pra cuidar, mas que nunca desanima. Cheia de frases de efeito e lições de moral, a personagem acaba por não cair na caricatura justamente porque todos conhecemos uma Dona Lindú, com suas falas de vocabulário pobre, porém com um grande significado por trás. Glória Pires, principalmente na primeira metade do filme, dá vida a uma figura que, apesar dos altos e baixos, nunca desanima. “Teima” sempre, como ela própria diz. As cenas em que Dona Lindú se orgulha do filho são emocionantes, como quando Lula recebe o diploma de Torneiro Mecânico ou quando Lula se suja propositalmente de óleo, numa passagem riquíssima em significado e muito bem realizada, já que o filme sempre deixa implícito esse significado, sem precisar jogar na cara de quem está assistindo como se todos fossem burros para não perceber a dimensão de tal gesto. Eu não me surpreenderia se – com uma pesada divulgação no exterior durante 2010 – Glória Pires recebesse uma indicação ao Oscar por esse filme.
Se na primeira metade do filme Dona Lindú é a protagonista, aos poucos Lula vai crescendo e tomando conta do filme. O garoto que o interpreta na adolescência mostra ser uma surpresa agradável nas poucas cenas em que aparece (como na já citada cena do macacão sujo). Algo a se lamentar é a pouca profundidade com que o filme aborda várias passagens da vida de Lula, mas compreensível, tendo em vista de que é impossível abordar todas as passagens detalhadamente.
Com Lula adulto, podemos acompanhar a transformação na vida de um homem cheio de conflitos internos e de opiniões. Com um irmão comunista e sindicalista (Ziza), Lula prefere assistir novela e quer distância da confusão de um sindicato. Chega a dizer para o irmão, que cobra uma consciência da classe trabalhadora, que os trabalhadores são uns “fudidos”, simbolizando que é impossível cobrar consciência quando se trabalha árduamente para botar comida na mesa. É notável a transformação da figura Luis Inácio para o Lula que conhecemos quando ele, trabalhando na fábrica, vê que as pessoas da diretoria do Sindicato nada mais são do que pessoas que nunca operaram uma máquina.
O filme não tenta mostrar Lula como herói. Diversas vezes é chamado de traíra pelos trabalhadores. Mostra também o seu envolvimento com a diretoria do Sindicato que, segundo Ziza, é chegada em uns “milicos” e que notadamente não faz nada demais pela classe trabalhadora, com o Presidente do Sindicato Feitosa (em uma atuação boa de Marcos Cesana) conseguindo “jeitinhos” para si e temendo que os trabalhadores entrem em greve por medo da repressão. Uma diretoria “pelega”. Aliás, o tempo todo o filme tenta afastar Lula da imagem de comunista, com o personagem sempre negando o ser e tentando permanecer neutro. Porém, o filme que engrena como uma narrativa a partir do envolvimento de Lula com o sindicato, mostra essa relação entre opressor e oprimido, capital e trabalho, da repressão policial contra os trabalhadores e a repressão militar de forma geral, o que denota uma “luta de classes”. Esse é outro acerto do filme, já que é um filme que não mostra a Ditadura Militar apenas como Comunistas x Ditadores, mostrando que a sociedade civil e os trabalhadores também sofriam com a repressão. Digna de elogios é a cena na qual um policial olha Lula de cabeça para baixo cantando o tema da Seleção Brasileira da Copa de 70 (um tema totalmente ufanista, criado pelo Governo Militar para transmitir um clima de otimismo e união entre os Brasileiros), enquanto do lado de fora, um rapaz é agredido por outros policiais.
Rui Ricardo Dias faz um bom trabalho como Lula, não tentando o imitar, principalmente no tom de voz, o que poderia acabar numa caricatura. Apesar disso, quando o Lula do filme reúne o sindicato dentro de uma igreja e diz que os cargos da diretoria estão à disposição, podemos ver claramente o Lula real ali, com a voz embargada, se emocionando depois da demonstração de apoio dos companheiros. Essa cena, assim como todas as cenas de assembléias, são muito bem reproduzidas. Particularmente a assembléia ocorrida no Estádio da Vila Euclides, com o exército esperando do lado de fora e helicópteros sobrevoando o estádio onde Lula discursa para 100 mil trabalhadores, sem microfone, com a sua fala sendo reproduzida boca a boca para que o estádio inteiro saiba o que ele está falando.
Entretanto, apesar da bela reprodução da assembléia no Estádio Vila Euclides, alguns discursos de Lula são rasos. Ainda nas reuniões do sindicato, Lula fala meia dúzia de frases e logo é recebido com gritos de “LULA, LULA”, exagerando na resposta dos trabalhadores, já que, ao contrário da excelente retórica do Lula real, os discursos nas reuniões do sindicato do filme são fracos e não reproduzem o seu ponto forte.
Outro ponto fraco do filme é o personagem de Aristides, pai de Lula, interpretado por Milhem Cortaz. Sempre bebendo, vociferando, babando e batendo nos filhos e na mãe, o personagem acaba sendo uma ilustração patética de um bêbado. Tudo isso, claro, para que o Lula pequeno seja um herói ao enfrentar o pai dizendo que “homem não bate em mulher”. A única cena onde Milhem Cortaz e seu personagem Aristides funcionam, é logo após esse enfrentamento do pequeno Lula com seu pai, quando ele se recolhe quieto a um canto com uma expressão desoladora, onde finalmente enxergamos algo de humano nesse homem. Se a cena onde Aristides impede Lula de jogar futebol também funciona bem, ela é logo prejudicada pela câmera em close mostrando o pai bebendo e babando sua pinga, uma imagem que poderia ter ficado de fora pelo exagero e pelo tom apelativo. A cena mais vergonhosa do filme é, de novo, com Aristides, implorando para que Lindú, chamada de desgraçada, não vá embora. Felizmente para o filme, Lindú vai embora e a narrativa cresce a partir daí, tornando-se um épico de um sujeito que superou todas as dificuldades que encontrou na vida inspirado pela braveza da mãe (que tem um filme à parte dentro desse).
Com uma boa direção e uma excelente fotografia, o filme me surpreendeu positivamente. É interessante notar que, a princípio, o filme quase não tem diálogos, sendo possível ouvir barulhos de animais no sertão nordestino, que é mostrado sempre com uma cor quente e forte, para logo depois esses barulhos de animais cederem espaço a vibrantes platéias que urram o nome de Lula, ou mesmo ao barulho das máquinas da fábrica. A cena onde Lula é acordado com a casa em inundação é muito bem dirigida e com uma ótima fotografia, fazendo com que você, assim como o personagem recém-despertado, tente entender o que está acontecendo. Sem falar nos cortes, onde o Lula adolescente dá lugar a um Lula mais maduro na mesma cena, em frente a uma máquina, ilustrando a passagem de tempo e sua maturidade no próprio trabalho, e a cena onde o Lula criança é fotografado e depois vemos o mesmo Lula, 30 anos mais velho, sendo fotografado na prisão. E preparem o lenço para a cena final, quando Lula toma posse como Presidente e oferece tudo a Dona Lindú.
“Lula, o Filho do Brasil” é um filme grandioso. Longe de querer discutir problemas sociais, o filme deixa subentendida as várias mudanças de pensamento do homem acima do mito e seus conflitos internos. Deixa subentendida também a miséria na vida dos moradores do sertão nordestino, a dificuldade de um operário que trabalha muito e ganha pouco pra sustentar o mesmo sistema que o oprime, além da luta de classes existente no filme. E a surpresa positiva desse filme veio, claro, por conta do bombardeio que ele vem sofrendo na imprensa brasileira, o que me leva a pensar: Será que não podemos analisar o filme como uma obra cinematográfica? Como o retrato de um dos inúmeros “Filhos do Brasil”, como a história de uma das muitas “Mães do Brasil”? É uma obra dramática que não tem a pretensão de revolucionar o cinema, muito menos a história, apenas conta a história rica de um homem que superou todos os obstáculos e chegou à Presidência da República. E nesse aspecto, o filme é um excelente drama político, e o que aconteceu a partir da fundação do PT e da sua chegada à Presidência da República, não pode estar em discussão em detrimento do excelente filme realizado.
Em uma época onde o recorde de bilheterias do cinema nacional é “Se Eu Fosse Você 2″, um filme como “Lula, o Filho do Brasil” é o melhor “blockbuster” brasileiro dos últimos anos.
Observação: Tim Maia servindo como trilha sonora para Lula e Lurdes é um destaque à parte nas músicas do filme, todas funcionando muito bem.
Lula, O Filho do Brasil: 2009, Brasil. Direção: Fábio Barreto. Elenco: Rui Ricardo Dias, Glória Pires, Juliana Baroni, Cléo Pires, Milhem Cortaz, Marcos Cesana, Antonio Pitanga, Lucélia Santos. Roteiro: Denise Paraná, Daniel Tendler, Fernando Bonassi. Duração: 130 min.
Notas:
Ronnie Romanini [8.5] Rodrigo Gianesi [7] Paulo do Valle [7]