Christoph Waltz se destaca mesmo atuando ao lado de Brad Pitt, no fantástico filme de Tarantino que reescreve a história da ocupação da França pela Alemanha nazista
Por Rodrigo Gianesi
Fui ao cinema alguns meses atrás com uma enorme expectativa para assistir o mais recente filme de Quentin Tarantino, “Bastardos Inglórios”. Tinha até medo de deixar minhas expectativas muito altas e acabar me decepcionando. Porém, é Tarantino. Não dá pra se decepcionar com o trabalho dele. O filme tem todas as características básicas e marcantes do diretor: capítulos, diálogos excepcionais, humor seco e sarcástico, ótimas atuações e (muita) violência. Mas mesmo assim, você se surpreende. Ao assistir o filme novamente esses dias, vi que a minha primeira impressão sobre ele estava correta: “Bastardos Inglórios” é fantástico.
O filme mostra um grupo vingativo e violento de soldados judeus americanos que viaja para a França com um único objetivo: matar nazistas. Comandados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt), os “Bastardos” espalham o terror entre aqueles que vestem a farda do Terceiro Reich. “Seremos cruéis com os alemães e, através dessa crueldade, eles vão saber quem nós somos. Verão a evidência de nossa crueldade nos corpos estripados, desmembrados e desfigurados dos próprios irmãos… E os alemães vão ficar cansados de nós. Os alemães vão falar de nós. Os alemães terão medo de nós.”. Esta é apenas uma parte do discurso do tenente para seus soldados, antes de partir. E eles conseguem tudo que Aldo “O Apache” diz.
Além de Aldo Raine, os outros Bastardos também são marcantes. Donny Donowitz (Eli Roth), ou, simplesmente, “O Judeu Urso”, é temido por todos os soldados nazistas pela sua fama de espancá-los até a morte com um taco de beisebol. Hugo Stiglitz (Til Shweiger) matou vários nazistas enquanto era soldado do Terceiro Reich. Após Stiglitz ser preso, os Bastardos o libertaram para “profissionalizá-lo” na arte de matar nazistas. As cenas do grupo misturam violência, suspense e humor refinado.
Paralelamente à história dos Bastardos, o filme mostra a história de Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), uma garota que conseguiu escapar do massacre que os nazistas aplicaram em sua família, logo na primeira cena do filme. Esta cena em questão é, na minha opinião, uma das melhores cenas do longa, com o tenso diálogo entre o fazendeiro Perrier LaPadite (Denis Menochet) e o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz). Após o assassinato de sua família, Shosanna foge e planeja uma vingança contra os nazistas.
Brad Pitt está, como sempre, impecável em sua atuação. Porém, não é ele quem se destaca mais, graças à Christoph Waltz. O ator austríaco foi um achado (ou um BINGO) de Tarantino. Waltz havia participado de poucos filmes (trabalhou mais em programas de televisão na Alemanha), e mostra uma atuação fantástica em “Bastardos Inglórios”. Waltz consegue despertar raiva, medo e simpatia juntos, criando um personagem diferente e muito forte. As melhores cenas do filme envolvem o austríaco: a seqüência inicial, a conversa dele com Shosanna no restaurante, entre outras. Vendo o filme (e a atuação de Waltz) podemos entender porque Tarantino quase desistiu de fazer o longa, pois não encontrava alguém para fazer o papel do Coronel. Não era fácil, pois o ator precisaria falar quatro línguas (inglês, francês, alemão e italiano) e, além disso, ser um ator expressivo. Ainda bem que Tarantino não desistiu. Acho que, com essa atuação, Waltz merece prêmios de melhor ator coadjuvante, e não duvido que ele leve.
De resto, só vendo o filme para entender. Tarantino consegue reescrever a história de um jeito que nunca imaginamos, e de forma sensacional. O diretor consegue fazer as cenas mais violentas serem visualmente bonitas. Mortes, explosões e tiroteios parecem música, parecem dança. Sinceramente, chega a ser lindo e arrepiar. Ok, não são todas as cenas violentas que são tão bonitas. Os bastardos arrancando os escalpos dos nazistas pode não ser a cena mais bela que você já viu, mas, ao ver um companheiro comendo um sanduíche logo ao lado daquele que arranca um pedaço da cabeça do inimigo torna a cena engraçada.
As cenas de suspense do filme também são memoráveis. Na primeira cena, por exemplo, todos sabem que a família Dreyfus vai morrer. Porém, Tarantino constrói um suspense interminável, com um diálogo envolvente entre o fazendeiro e o Coronel. Depois, em um ataque dos Bastardos aos nazistas, o Tenente Aldo Raine fala do “Judeu Urso”, diz ao soldado nazista que ele está lá e que ele bate nos inimigos com seu taco de beisebol. Mesmo assim, no caminho do Bastardo para sair do túnel, só o ouvimos batendo com o taco no chão, e ele demora a aparecer. Nós sabemos o que vai acontecer. Nós sabemos o que vamos ver. Mesmo assim, ficamos nervosos por esperar. Tem coisas que só o Tarantino faz…
Combinando com uma trilha sonora ousada e muito adequada, fotografia espetacular, ótimo elenco e roteiro fantástico, “Bastardos Inglórios” é um filme completo, e ouso em dizer que o filme já se tornou meu favorito de Tarantino, e espero, ansiosamente, o prelúdio já anunciado pelo diretor. Parabéns, Quentin Tarantino. Você é um gênio, e prova isso a cada filme.
Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds): 2009, EUA, Alemanha. Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Diane Kruger, Michael Fassbender, Daniel Brühl, Til Shweiger, Gedeon Burkhard. Roteiro: Quentin Tarantino. Duração: 153 min.
Notas:
Rodrigo Gianesi [10] Paulo do Valle [10]
Média Parcial:
[10]



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