O que aprendemos com Avatar

16 01 2010

Por Paulo do Valle

Após um mês de sua estréia, tomei vergonha na cara e assisti o tão comentado “Avatar“. 400 milhões de dólares, o filme mais caro da história, segunda maior bilheteria de todos os tempos (só perdendo para Titanic do mesmo James Cameron)… precisa de mais alguma coisa? Sim! Uma crítica minha aqui no @cinemajestic.  :)

Para muitos um filmão, para outros uma decepção. O que ninguém pode discordar é que “Avatar” matou a pau no quesito ‘’efeitos especiais’’. Mas por incrível que pareça, não é por isso que o filme vale a pena.

A história quase todos nós já sabemos: futuro distante, um outro planeta, uma outra raça e uma matéria prima valiosa. O ano é distante mas a mania de poder e dinheiro dos seres humanos é a mesma. Bora causar em outro planeta e pegar esse minério pra nós! Para isso é criado um corpo idêntico ao das pessoas desse planeta onde só a mente é transferida , enquanto o humano “dorme”. Temos o famoso Avatar.

Clichê, manjada, cansativa, Disney… Cada um tem sua opinião sobre a história escrita por Cameron. Mas o que não podemos ignorar é o que esse filme nos mostra e nos ensina. Foi preciso usar outra raça e outro planeta para mostrar as aberrações que acontecem aqui, entre nós mesmos, tão iguais na teoria. Não é preciso ir tão longe para detectar casos parecidos com o do filme: basta abrir um jornal, assistir televisão ou, porque não, apenas sair na rua. Não quero entrar em detalhes socioeconômicos, políticos e tudo mais. Mas é impossível, após assistir ao filme, não refletir sobre o quão grande é a merda (me desculpem o palavrão) do mundo que vivemos. O mais engraçado foi perceber o quanto as pessoas ficavam chocadas com a crueldade humana para com os nativos da ilha, se esquecendo de como isso cada vez mais se torna comum no mundo em que vivemos, e parece que, mais e mais, estamos nos acostumando com isso.

Ao ver minha namorada sofrendo durante a sessão pela vida dos pobres coitados do planeta de Pandora, pude perceber o quanto nos esquecemos de sofrer pela vida de pessoas reais e, como nós, vivendo no mesmo planeta. Ao folhear uma revista nos deparamos com imagens tão chocantes quanto a que podemos ver os humanos fazendo no filme contra a população de outro planeta mas que, por motivo de acomodação, acabamos ignorando e mudando a página, como se aquele problema não fosse nosso. E eu falo isso com toda a convicção do mundo, porque eu sou assim, vítima da minha própria ignorância e comodismo.

Muito triste saber que foi preciso ser gasto 400 milhões de dólares para mostrar ao mundo o quanto somos cruéis com nós mesmos e com a nossa maior riqueza, que é a natureza, e que, mesmo assim, muita gente vai sair do cinema satisfeita com a diversão proporcionada pelos efeitos do filme e apagar ou ignorar a mensagem, que está tentando ser passada todos os dias gratuitamente pelo mundo. E o que mais choca é saber que nós somos os vilões dessa história.

Avatar (Avatar): 2009, EUA. Direção: James Cameron. Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi. Roteiro: James Cameron. Duração: 162 min.

Notas:

Paulo do Valle: [7.5] Rodrigo Gianesi [8.0] Ronnie Romanini [8.5]

Média: [8.0]


Ações

Informação

8 respostas

16 01 2010
natanhc

Poh, isso tudo é verdade. Apesar de muitos reclamarem que a história é meio clichê, a coisa que me chamou a atenção, além dos efeitos especiais, foi o fato de nós invadirmos um planeta, no papel do vilão sem misericórdia, ao invés dos pobres humanos indefesos. Nada além do retrato da nossa sociedade hoje.

16 01 2010
Rodrigo Gianesi

Concordo com tudo, mas esqueceu de falar que “Avatar” é a “Pocahontas” do futuro:

http://images.huffingtonpost.com/gen/130283/original.jpg

AVATAR = POCAHONTAS, e isso é fato.

Mesmo assim, belíssimo filme de Cameron.

16 01 2010
luanalevenhagen

No último parágrafo vocês mataram a pau. Uma ótima história, efeitos especiais de deixar o queixo cair, mas NADA foi mais definitivo, marcou-me mais do que a mensagem escancarada no filme. É preciso gastar 400 milhões para as pessoas perceberem o mal que estamos fazendo, e pior, algumas sequer se dão conta. Assumindo um caráter contemplativo de uma posição cega e otimista, pensando em “ah, como os na’vi sofreram e mimimi”. Mas e quanto aos estragos que NÓS estamos infrigindo diariamente às outras pessoas, ao nosso planeta? A atitude humana do filme é a que tomamos. Cegos pela ambição e o poder destruimos o que mais importa. E isso não é nenhuma novidade. Falta a mudança. Um filme incrível, aliás.

17 01 2010
Nossos palpites para o Globo de Ouro: « CINEMAJESTIC

[...] Ronnie Romanini: James Cameron, por Avatar [...]

17 01 2010
Tati Bueno

Gente, sério, não gostei tanto assim de Avatar, mas concordo com cada palavra que vcs escreveram!
Tenho a maior preguiça de comentar, mas o post de vcs merece muito um comentário!

Fantástico, fabuloso e principalmente pessoal e verdadeiro. Concordo que somos os vilões de todo esse caos que vivemos e viveremos e que somos acomodados e nos importamos parcialmente e, geralmente, para sermos politicamente corretos. Ou não, simplesmente não nos importamos mesmo.
E realmente MUITOS dos que assitiram vão simplesmente se deslumbrar com os efeitos especiais e não se importar com a mensagem, mas se os poucos que derem realmente valor à mensagem fizerem algo, quem sabe (por mais utópico que seja) possa ser diferente e ajude a alguns, que seja.

Mas enfim, além de toda a mensagem e os efeitos fantásticos, minha nota para o filme é 7,o!

Beeeeijos

18 01 2010
Daniel Angione

Na verdade, tanto Pocahontas como Avatar são derivados da idéia feita em Dança com Lobos, de 1990 ou 91, se não me engano… Tem muitos filmes recentes que podem ser encaixados no roteiro de Pocahontas, tipo Ultimo Samurai (troque Índios por Samurais) e etc… Mas não se pode esquecer que o roteiro de Avatar é de 1995, então apesar de ser um clichê, quando foi escrito era o ápice desse gênero que hoje é clichê… Não, não nego que o filme tenha muitos clichês, apenas estou apresentando alguns fatos :P
Mas mesmo com o roteiro não tão elaborado nesse lado, acho que o roteiro é muito original e criativo se analisarmos o que para mim é a segunda coisa mais importante do filme (sendo a primeira o que você já explicou perfeitamente – a lição do filme) que é a parte relativa ao destino, às coincidências: Tudo seria diferente se fosse o irmão de Jake lá. Por que ele morreu? Por que Jake era aleijado? Se ele não tivesse essa condição, ele jamais teria se apaixonado pelo ‘novo mundo’ como ele se apaixonou – um mundo que lhe deu pernas a primeira vista… E essa primeira vista foi o que o levou a entrar de cabeça nisso tudo. E claro, o fato dele ser o copo ‘vazio’ que Mo’at procruava (de forma menos delicada, um idiota)… Colocar um protagonista aleijado num filme dramático de esportes ou algo do gênero é comum, mas colocá-lo e encaixá-lo na condição de uma história de aventura, ação, foi ousado e muito bem feito… O conflito que mostra ao redor disso foi bem legal, ao meu ver, eu que gostei bastante do filme.
Minha opinião ao mesmo tempo é relativa, já que sou fã de longa data de fantasia, ficção, RPG e um pouco escapista (na verdade, ao sair do cinema após ver Avatar pela primeira vez percebi que sou MUITO escapista) mas ao mesmo tempo tento ser justo. Meu coração daria nota 10, mas analisando os (na minha opinião) poucos defeitos, eu dou nota final 9,0

24 01 2010
Cadu GArcia

O filme me lembrou do que aconteceu na Europa quando os povos “pagãos” estavam sendo convertidos ao cristianismo… quando florestas tidas como sagradas eram incendiadas só por isso, serem sagradas, e a destruição delas só ia mostrar o poder do conquistador e enfraquecer a moral do conquistado.

22 03 2010
Guerra ao Terror- Antes tarde do que nunca « CINEMAJESTIC

[...] curioso e estranho duelo entre ex-marido e ex-esposa no Oscar: enquanto James Cameron com “Avatar“ era apontado como o grande favorito para abocanhar os prêmios mais importantes da noite, [...]

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