Jason Reitman surpreende em vários aspectos e faz um belo filme
Por Rodrigo Gianesi
Fui assistir “Amor Sem Escalas” com o mesmo medo que fui assistir “Juno“, do mesmo diretor, Jason Reitman: o medo criar uma expectativa alta demais por tudo que ouvi do filme, e, ao assisti-lo, achar bom, mas não para tanto. Porém, meu medo foi desnecessário, pois vi que o filme merece sim o tanto que falaram dele.
“Amor Sem Escalas” me surpreendeu algumas vezes. A primeira delas foi logo no começo do filme. O título traduzido de forma banal (como acontece com muitos filmes por aí…) dá a idéia de que ele é apenas mais uma comédia romântica repleta de clichês, um filminho para sessão da tarde, sei lá. Foi a impressão que eu tive. Vendo o filme, pude perceber que era um filme muito mais profundo do que o título em português sugere.
Minha segunda surpresa foi a Anna Kendrick. A amiga de Bella na saga “Crepúsculo” não aparece muito na história dos vampiros e lobos, portanto sua atuação não é muito notada. Já em “Amor Sem Escalas“, Kendrick tem um papel mais importante, como Natalie, uma das duas mulheres que entram na vida de Ryan Bingham (George Clooney, que dispensa qualquer comentário sobre atuação). A atriz faz uma personagem carismática e que chega a ser, em certas horas, engraçada, mostrando certo talento, algo oculto na sua participação na saga “Crepúsculo“.
Outra surpresa foi o relacionamento amoroso do filme. O casal formado por Ryan e Alex (a bela Vera Farmiga) é um tanto quanto incomum. Nenhum dos dois quer compromisso, quase nunca estão juntos e são praticamente a mesma pessoa, apenas de outro sexo. Nada daquilo que costumamos ver nos filmes “românticozinhos”: uma garota que não tem absolutamente nada a ver com o cara, que acreditam no amor e que conseguem encontrar no outro o que falta em si mesmo, e bla bla bla. Não. Eles são iguais. Eles não querem compromisso. Não dão muita importância para o amor. Quando você lê isso você fica pensando consigo mesmo: COMO O CARA CONSEGUIU FAZER UM CASAL ASSIM? Pois é, conseguiu, e bem.
Uma história boa entre os dois, e que, por incrível que pareça, mostra que o amor pode vencer até os mais céticos no final. Ou não. Depende de que forma você assiste o filme, depende do seu olhar para ele, e é isso que me fascinou no roteiro vencedor do Globo de Ouro. Roteiro este que rendeu algumas outras surpresas, mas que prefiro não dizer para não estragá-las para os leitores que ainda não viram o filme.
Mas o que eu mais fiquei intrigado com o filme foi o seguinte: não sei se eu fui o único que notei isso pois sou um grande fã de “Friends“, se é viagem minha ou sei lá, mas percebi algumas referências à série no filme. De cabeça, só lembro de duas agora: quando o chefe de Ryan está explicando o software que vai evitar que os funcionários fiquem viajando o tempo inteiro, ele diz “Ninguém mais vai precisar passar o Natal sozinho em Tulsa. Vocês poderão voltar para casa”. Na nona temporada de “Friends“, Chandler (Matthew Perry) tem que passar o natal sozinho por causa do trabalho. E exatamente na cidade de Tulsa, no décimo episódio da temporada, chamado “The One With Christmas in Tulsa“. Em outra cena, o futuro cunhado de Ryan está lendo o livro “The Velveteen Rabbit“. Este livro é mencionado duas vezes na série, em dois episódios distintos: no sexto episódio da quarta temporada (“The One With the Dirty Girl“), Chandler compra a primeira edição do livro para a namorada de Joey (Matt LeBlanc). Já na oitava temporada, no sexto episódio (“The One With the Halloween Party“), Monica (Courtney Cox) faz Chandler se vestir de coelho, pois ela acha que ele vai gostar, já que seu livro favorito quando criança era “The Velveteen Rabbit“. Coincidentemente (ou não), todas as referências à série que podemos encontrar no filme são relacionadas ao personagem Chandler Bing, que, dos seis principais de “Friends“, é o que mais tem dificuldades de se relacionar com as pessoas e apresenta um notável medo de compromisso, assim como o protagonista do filme.
Outra coincidência semelhante à essa é o ator escolhido para fazer o papel de Ryan Bingham, e essa coincidência eu sei que não foi apenas eu quem notou, pois meu companheiro de Cinemajestic, Paulo do Valle, comentou sobre isso enquanto eu escrevia. George Clooney, assim como seu personagem, é um solteirão que não quer saber de casar, e se satisfaz saindo com diversas mulheres. Falando em Ryan Bingham, notem seu sobrenome. Bingham. Bingham. Chandler Bing. Não? Viagem demais? Ok, parei.
Enfim, vale a pena ver o filme, por diversos motivos: uma boa direção, um ótimo roteiro, grande elenco, e, mais importante, uma bela mensagem.
Amor Sem Escalas (Up in the Air): 2009, EUA. Direção: Jason Reitman. Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman. Roteiro: Jason Reitman, Sheldon Turner. Duração: 109 min.
Notas:
Rodrigo Gianesi [8.0] Paulo do Valle [8.0] Ronnie Romanini [9.0]
Média: [8.3]

