Entre os Muros da Escola

5 01 2010

“Entre os Muros da Escola” usa a escola para falar sobre os problemas e conflitos na sociedade Francesa

Por Ronnie Romanini

Baseado em um livro autobiográfico escrito por François Bégaudeau (que também assina o roteiro ao lado de Robin Campillo e Laurent Cantet – esse último também o diretor), “Entre os Muros da Escola” é um filme que retrata a França atual, com sua miscigenação étnica e racial e forte xenofobia com os imigrantes, o que gera vários conflitos no país. O filme foi o vencedor da Palma de Ouro em 2008 e indicado a Melhor Filme Estrangeiro.

François Bégaudeau, aliás, não é só o escritor do livro que originou o filme e roteirista, como também interpreta a si mesmo nesse filme, em sua estréia como ator. O resultado é surpreendente, já que François é a principal figura do longa, onde acompanhamos suas dificuldades em tornar interessante uma aula que, temos de admitir, não é nada interessante para aqueles jovens da periferia Francesa.

Com alunos provocadores, François se esforça para mostrar-se interessado na vida e no desenvolvimento daqueles jovens, insistindo em corrigir qualquer gíria ou erro na fala desses alunos, que não dão a mínima para os esforços de François. Temos um jovem, Souleymane, por exemplo, que encontra dificuldades em casa (em certo momento do filme uma aluna pergunta se François conhece o pai de Souleymane, insinuando que é um homem rigoroso e disciplinador) e acaba por transmitir essa rebeldia contida na sala de aula. O mais interessante é notar que os alunos não são mostrados como estereótipos. Mesmo os que entram em conflito com o professor são humanos, com suas imperfeições e fraquezas, e que no fundo só desejam ter alguém que os escute e os compreenda. A cena em que François explora o gosto de Souleymane pela fotografia é o exemplo maior disso.

François tenta ser esse elo de comunicação e compreensão, nem sempre com sucesso. Chamado de burguês, de afetado e de homossexual pelos alunos, ele não consegue o retorno desejado no esforço de fazer com que esses jovens pensem, reflitam, debatem. Os debates entre eles consistem em provocações sobre futebol e xingamentos que chegam a ser racistas, já que a sala de aula é uma mistura de descendentes de marroquinos, antilhanos e os franceses como o protagonista. Interessante notar que poucos se definem “franceses”, e aqueles que se definem, dizem não ter orgulho disso.

François Bégaudeau escreveu o livro, roteirizou e é o protagonista do filme

François é o personagem mais complexo do filme. Tentando sempre incluir os alunos e aparar as diferenças, acaba por vezes sendo visto como ele próprio um burguês, um racista, como quando questionado pelos alunos sobre o motivo de sempre usar nomes de pessoas brancas nos exemplos dados em sala. Em certo momento do filme François refere-se à Áustria como um país pequeno, sem importância, que ninguém sentiria falta se não existisse. Essa fala pode parecer preconceituosa, mas é dita de uma forma natural, mostrando também que toda pessoa, por mais esforçada e dedicada que seja (como François é), comete pequenos deslizes que não necessariamente significam que se trata de uma pessoa preconceituosa.

É por isso que nos surpreendemos quando François perde a paciência e ofende duas alunas (que dizem aos amigos que François chamou um aluno de limitado), ocasionando um conflito na sala de aula que coloca em risco um ano inteiro de trabalho com esses alunos. Esse incidente nos faz refletir que, por mais que exista uma hierarquia – e François por vezes tenta fingir que não, tentando ser um professor-amigo – todos, do Diretor ao colega que entra na sala dos professores com um desabafo raivoso e triste, são pessoas com defeitos, com dificuldade em aceitar críticas e que reagem com agressividade quando confrontadas com uma realidade que preferiam ocultar.

“Entre os Muros da Escola” é um drama pesado e difícil que retrata o ambiente escolar sem os clichês e estereótipos e da forma mais verdadeira, não retratando nenhuma das personagens como uma pessoa má e nenhuma como livre de defeitos. Aborda vários temas que podem ser debatidos, como o convívio forçado de diferentes culturas e etnias e até onde vai a figura do educador na vida dos alunos, qual é o limite de liberdade que um pode ter com o outro. O mais importante a ser notado é que François não é apenas um professor, passando seus conhecimentos sobre francês aos alunos, mas sim um educador, tentando sempre estimulá-los e fazê-los refletir, através de discussões que começam em um assunto e terminam em outro totalmente diferente, não se prendendo apenas a ensinar o significado de “pérfido”.

Observação: o elenco é quase que inteiramente formado por amadores que interpretam a si mesmo.

Entre os Muros da Escola (Entre les murs): 2008, França. Direção: Laurent Cantet. Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille. Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, François Bégaudeau. Duração: 128 min.

Notas:

Ronnie Romanini [10] Rodrigo Gianesi [8.5]

Média parcial: [9.25]





Lula, O Filho do Brasil

2 01 2010

Lula, o Filho do Brasil é um épico dramático político – não partidário.

Por Ronnie Romanini

Escrever sobre o filme que retrata a vida do Presidente mais popular da história do país e, ao mesmo tempo, do Presidente que ainda encontra grande preconceito e rejeição da classe alta, é algo sempre perigoso. Podem acusar o texto de ser pró-Lula, anti-Lula, comunista, reacionário. É importante deixar claro que, assim como o filme faz, a abordagem do Lula político não estará presente aqui.

Dito isso, vamos ao filme. Dirigido por Fábio Barreto (que dirigiu também o filme “O Quatrilho” – indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – e que está hospitalizado em estado grave após um acidente), o filme é uma adaptação a um livro de mesmo nome de Denise Paraná, que o escreveu através de entrevistas com o próprio Lula e seus familiares e amigos. O filme começa com o nascimento de Lula – já longe do pai – e aborda sua infância, adolescência e início de vida política como lider sindical, sem abordar a luta pelas eleições diretas ou a fundação do PT.

Os realizadores do filme acertam em não explorar a miséria de Lula e sua família. As cenas passadas no nordeste são com poucas falas e uma bela fotografia, o suficiente para nos darmos conta da vida que o povo, e não apenas Dona Lindú e filhos, levavam e ainda levam em uma região que muita gente dirá: nem parece Brasil. O filme tem seu mérito ao não tentar fazer uma analise sociólogica sobre a vida de uma mãe solteira na região nordeste com muitos filhos para cuidar, focando apenas na história de um homem que subiu na vida e de sua mãe, que sempre esteve por trás da ascensão do filho.

Glória Pires rouba a cena na primeira metade do filme como Dona Lindú, mãe de Lula.

Dona Lindú, aliás, é a grande figura desse filme, talvez até mais do que Lula. Com uma atuação surpreendente de Glória Pires, Lindú encarna a típica mãe solteira que tem uma família grande pra cuidar, mas que nunca desanima. Cheia de frases de efeito e lições de moral, a personagem acaba por não cair na caricatura justamente porque todos conhecemos uma Dona Lindú, com suas falas de vocabulário pobre, porém com um grande significado por trás. Glória Pires, principalmente na primeira metade do filme, dá vida a uma figura que, apesar dos altos e baixos, nunca desanima. “Teima” sempre, como ela própria diz. As cenas em que Dona Lindú se orgulha do filho são emocionantes, como quando Lula recebe o diploma de Torneiro Mecânico ou quando Lula se suja propositalmente de óleo, numa passagem riquíssima em significado e muito bem realizada, já que o filme sempre deixa implícito esse significado, sem precisar jogar na cara de quem está assistindo como se todos fossem burros para não perceber a dimensão de tal gesto. Eu não me surpreenderia se – com uma pesada divulgação no exterior durante 2010 – Glória Pires recebesse uma indicação ao Oscar por esse filme.

Se na primeira metade do filme Dona Lindú é a protagonista, aos poucos Lula vai crescendo e tomando conta do filme. O garoto que o interpreta na adolescência mostra ser uma surpresa agradável nas poucas cenas em que aparece (como na já citada cena do macacão sujo). Algo a se lamentar é a pouca profundidade com que o filme aborda várias passagens da vida de Lula, mas compreensível, tendo em vista de que é impossível abordar todas as passagens detalhadamente.

Com Lula adulto, podemos acompanhar a transformação na vida de um homem cheio de conflitos internos e de opiniões. Com um irmão comunista e sindicalista (Ziza), Lula prefere assistir novela e quer distância da confusão de um sindicato. Chega a dizer para o irmão, que cobra uma consciência da classe trabalhadora, que os trabalhadores são uns “fudidos”, simbolizando que é impossível cobrar consciência quando se trabalha árduamente para botar comida na mesa. É notável a transformação da figura Luis Inácio para o Lula que conhecemos quando ele, trabalhando na fábrica, vê que as pessoas da diretoria do Sindicato nada mais são do que pessoas que nunca operaram uma máquina.

O filme não tenta mostrar Lula como herói. Diversas vezes é chamado de traíra pelos trabalhadores. Mostra também o seu envolvimento com a diretoria do Sindicato que, segundo Ziza, é chegada em uns “milicos” e que notadamente não faz nada demais pela classe trabalhadora, com o Presidente do Sindicato Feitosa (em uma atuação boa de Marcos Cesana) conseguindo “jeitinhos” para si e temendo que os trabalhadores entrem em greve por medo da repressão. Uma diretoria “pelega”. Aliás, o tempo todo o filme tenta afastar Lula da imagem de comunista, com o personagem sempre negando o ser e tentando permanecer neutro. Porém, o filme que engrena como uma narrativa a partir do envolvimento de Lula com o sindicato, mostra essa relação entre opressor e oprimido, capital e trabalho, da repressão policial contra os trabalhadores e a repressão militar de forma geral, o que denota uma “luta de classes”. Esse é outro acerto do filme, já que é um filme que não mostra a Ditadura Militar apenas como Comunistas x Ditadores, mostrando que a sociedade civil e os trabalhadores também sofriam com a repressão. Digna de elogios é a cena na qual um policial olha Lula de cabeça para baixo cantando o tema da Seleção Brasileira da Copa de 70 (um tema totalmente ufanista, criado pelo Governo Militar para transmitir um clima de otimismo e união entre os Brasileiros), enquanto do lado de fora, um rapaz é agredido por outros policiais.

Rui Ricardo Dias faz um bom trabalho como Lula, não tentando o imitar, principalmente no tom de voz, o que poderia acabar numa caricatura. Apesar disso, quando o Lula do filme reúne o sindicato dentro de uma igreja e diz que os cargos da diretoria estão à disposição, podemos ver claramente o Lula real ali, com a voz embargada, se emocionando depois da demonstração de apoio dos companheiros. Essa cena, assim como todas as cenas de assembléias, são muito bem reproduzidas. Particularmente a assembléia ocorrida no Estádio da Vila Euclides, com o exército esperando do lado de fora e helicópteros sobrevoando o estádio onde Lula discursa para 100 mil trabalhadores, sem microfone, com a sua fala sendo reproduzida boca a boca para que o estádio inteiro saiba o que ele está falando.

Entretanto, apesar da bela reprodução da assembléia no Estádio Vila Euclides, alguns discursos de Lula são rasos. Ainda nas reuniões do sindicato, Lula fala meia dúzia de frases e logo é recebido com gritos de “LULA, LULA”, exagerando na resposta dos trabalhadores, já que, ao contrário da excelente retórica do Lula real, os discursos nas reuniões do sindicato do filme são fracos e não reproduzem o seu ponto forte.

Outro ponto fraco do filme é o personagem de Aristides, pai de Lula, interpretado por Milhem Cortaz. Sempre bebendo, vociferando, babando e batendo nos filhos e na mãe, o personagem acaba sendo uma ilustração patética de um bêbado. Tudo isso, claro, para que o Lula pequeno seja um herói ao enfrentar o pai dizendo que “homem não bate em mulher”. A única cena onde Milhem Cortaz e seu personagem Aristides funcionam, é logo após esse enfrentamento do pequeno Lula com seu pai, quando ele se recolhe quieto a um canto com uma expressão desoladora, onde finalmente enxergamos algo de humano nesse homem. Se a cena onde Aristides impede Lula de jogar futebol também funciona bem, ela é logo prejudicada pela câmera em close mostrando o pai bebendo e babando sua pinga, uma imagem que poderia ter ficado de fora pelo exagero e pelo tom apelativo. A cena mais vergonhosa do filme é, de novo, com Aristides, implorando para que Lindú, chamada de desgraçada, não vá embora. Felizmente para o filme, Lindú vai embora e a narrativa cresce a partir daí, tornando-se um épico de um sujeito que superou todas as dificuldades que encontrou na vida inspirado pela braveza da mãe (que tem um filme à parte dentro desse).

Com uma boa direção e uma excelente fotografia, o filme me surpreendeu positivamente. É interessante notar que, a princípio, o filme quase não tem diálogos, sendo possível ouvir barulhos de animais no sertão nordestino, que é mostrado sempre com uma cor quente e forte, para logo depois esses barulhos de animais cederem espaço a vibrantes platéias que urram o nome de Lula, ou mesmo ao barulho das máquinas da fábrica. A cena onde Lula é acordado com a casa em inundação é muito bem dirigida e com uma ótima fotografia, fazendo com que você, assim como o personagem recém-despertado, tente entender o que está acontecendo. Sem falar nos cortes, onde o Lula adolescente dá lugar a um Lula mais maduro na mesma cena, em frente a uma máquina, ilustrando a passagem de tempo e sua maturidade no próprio trabalho, e a cena onde o Lula criança é fotografado e depois vemos o mesmo Lula, 30 anos mais velho, sendo fotografado na prisão. E preparem o lenço para a cena final, quando Lula toma posse como Presidente e oferece tudo a Dona Lindú.

“Lula, o Filho do Brasil” é um filme grandioso. Longe de querer discutir problemas sociais, o filme deixa subentendida as várias mudanças de pensamento do homem acima do mito e seus conflitos internos. Deixa subentendida também a miséria na vida dos moradores do sertão nordestino, a dificuldade de um operário que trabalha muito e ganha pouco pra sustentar o mesmo sistema que o oprime, além da luta de classes existente no filme. E a surpresa positiva desse filme veio, claro, por conta do bombardeio que ele vem sofrendo na imprensa brasileira, o que me leva a pensar: Será que não podemos analisar o filme como uma obra cinematográfica? Como o retrato de um dos inúmeros “Filhos do Brasil”, como a história de uma das muitas “Mães do Brasil”? É uma obra dramática que não tem a pretensão de revolucionar o cinema, muito menos a história, apenas conta a história rica de um homem que superou todos os obstáculos e chegou à Presidência da República. E nesse aspecto, o filme é um excelente drama político, e o que aconteceu a partir da fundação do PT e da sua chegada à Presidência da República, não pode estar em discussão em detrimento do excelente filme realizado.

Em uma época onde o recorde de bilheterias do cinema nacional é “Se Eu Fosse Você 2″, um filme como “Lula, o Filho do Brasil” é o melhor “blockbuster” brasileiro dos últimos anos.

Observação: Tim Maia servindo como trilha sonora para Lula e Lurdes é um destaque à parte nas músicas do filme, todas funcionando muito bem.

Lula, O Filho do Brasil: 2009, Brasil. Direção: Fábio Barreto. Elenco: Rui Ricardo Dias, Glória Pires, Juliana Baroni, Cléo Pires, Milhem Cortaz, Marcos Cesana, Antonio Pitanga, Lucélia Santos. Roteiro: Denise Paraná, Daniel Tendler, Fernando Bonassi. Duração: 130 min.

Notas:

Ronnie Romanini [8.5] Rodrigo Gianesi [7] Paulo do Valle [7]





Candy: paraíso, terra, inferno

24 11 2009

Candy narra a história de um casal que têm suas vidas estragadas pelo vício que os dois têm em comum: a heroína

Por Ronnie Romanini

Dividido em três partes (Paraíso, Terra e Inferno), Candy fala sobre o relacionamento de Candy (Abbie Cornish) com Dan (Heath Ledger) e o de ambos com a heroína, traçando um paralelo interessante entre essas três partes com os três estágios que passa um usuário da droga.

Começando pelo “Paraíso”, o filme mostra o início do relacionamento entre os dois jovens artistas (ela uma aspirante a pintora e ele a poeta). Enquanto Dan não tem uma família por trás, sendo sozinho no mundo, Candy tem toda a superproteção que seus pais, de classe média-alta, podem dar. É quando Candy decide experimentar a heroína que Dan já usava que as coisas começam a mudar na vida de ambos, até então dois jovens promissores em suas carreiras e apaixonados. Essa primeira parte tem seu foco nos efeitos alucinógenos da droga e na sensação de felicidade momentânea que ela traz. Ambos estão felizes e a necessidade cada vez maior de se virar com o pouco dinheiro que possuem, realizando pequenos furtos, parece empolgá-los. É nessa parte que surge Casper (Geoffrey Rush). Professor de Química que usa seu laboratório para produzir drogas e considerado por Dan como um pai que todo mundo gostaria de ter, Casper é quem financia os dois no início, sempre emprestando dinheiro a Dan e às vezes fornecendo a droga ou usando junto.

A situação começa a mudar quando a falta de dinheiro torna-se um problema muito maior do que ambos consideravam. Nessa parte, “Terra”, o filme passa a ser cru e realista, à medida em que retrata a humilhação pela qual Dan e Candy começam a passar em troca do dinheiro para conseguir a droga. Os dois deixam o orgulho de lado e passam a fazer coisas inimagináveis até então, mas que se tornam totalmente naturais em decorrência da necessidade de usar a droga. Dan encara com naturalidade (ou ao menos finge tal naturalidade para não ter que se preocupar com o problema) a solução encontrada por Candy para conseguir o dinheiro.

A terceira parte do filme mostra o “Inferno”. Um acontecimento na vida do casal faz com que eles decidam parar de usar a droga e isolem-se num quarto, com apenas um colchão e uma televisão. Mostrando dia a dia a abstinência da heroína, essa parte torna-se perturbadora e chocante principalmente pela atuação de Abbie Cornish e Heath Ledger que brilham retratando o efeito biológico e psicólogico que a falta da droga causa. A cena em que ambos estão no hospital é estarrecedora.

Longe de ser uma glamourização das drogas, o aspecto negativo do filme reside apenas na comparação com outros filmes que tratam do mesmo assunto. Candy não tem a direção ousada e inovadora de Réquiem para um Sonho e nem é um filme tão original e completo como Trainspotting – Sem Limites. Muito graças ao trio principal de atores (Geoffrey Rush e Heath Ledger estão ótimos como sempre e Abbie Cornish é uma belíssima surpresa, chocando pela força que dá à personagem), Candy trata-se de um bom e triste filme sobre como a dependência química faz o usuário perder qualquer dignidade ou valor pré-concebido.

Candy (Candy): 2006, Austrália. Direção: Neil Armfield. Elenco: Abbie Cornish, Heath Ledger, Geoffrey Rush, Noni Hazlehurst, Tony Martin. Roteiro: Neil Armfield e Luke Davies. Duração: 116 min.

Notas:

Ronnie Romanini [7.5] Rodrigo Gianesi [7.5] Paulo do Valle [10]

Nossa média: [8.3]





(500) Dias Com Ela: um oásis no deserto

21 11 2009

(500) Dias Com Ela é um sopro de originalidade e criatividade num meio já saturado.

Por Ronnie Romanini

We Don’t Make Fancy Quality. We Make True Everyday Quality“. Em dado momento do filme, após uma cena alegre entre Summer (Zooey Deschanel) e Tom (Joseph Gordon-Levitt), podemos ver uma placa com esses dizeres como que antecipando o que estava por vir.

O diretor Marc Webb, em seu primeiro longa, acerta ao fazer um filme inovador em um meio onde o que mais há são clichês. Em (500) Dias Com Ela, Webb recicla os inevitáveis clichês, transformando-os em algo real e possível de acontecer com qualquer um de nós.

Summer é uma garota que não acredita no amor. “Isso é uma fantasia”, diz ela na primeira conversa mais longa com Tom. Este, ao contrário, é uma pessoa que acredita em amor, alma-gêmea, destino e todas as coisas que normalmente as meninas são quem acreditam. Tom, que supervaloriza o amor, apaixona-se por Summer, que o subestima. Com uma premissa dessas, não estarei estragando nenhuma surpresa se disser que o relacionamento não dará certo.

O filme tem seu foco nos 500 dias de (não-)relacionamento entre Tom e Summer, mostrando seu início, meio e fim de forma não-cronológica, como se o filme nada mais fosse do que a mente de Tom relembrando vários momentos com Summer de forma totalmente aleatória.

Com diálogos espirituosos e cheios de referência à cultura pop (há uma conversa onde uma personagem descreve um rapaz como se tivesse a cara do Brad Pitt e o abdômen de Jesus), Marc Webb monta um filme onde cada diálogo não é mera conversa jogada fora, cada palavra trocada tem seu significado na vida das personagens e no contexto do filme. Há uma sequência onde Tom, em seu lugar favorito, fala sobre a arquitetura da cidade e diz que, se há algo bonito, devemos ressaltá-lo, e não escondê-lo. E é exatamente isso que Marc faz com a atriz Zooey Deschanel. Summer não aparece no filme sem que haja alguma peça azul a acompanhando e realçando seus olhos. Na melhor sequência do filme, Tom sai pelas ruas dançando completamente apaixonado e todas as pessoas que interagem com ele vestem roupas azuis.

Também digna de elogios é a cena onde Tom vai a uma festa dada por Summer e a tela se divide entre Realidade e Expectativa.

Zooey Deschanel encaixa perfeitamente como Summer. Com belíssimos olhos azuis, e um gosto peculiar para roupas e músicas – o seu Beatle preferido é Ringo Starr -, Zooey (que também tem uma banda) encarna a mulher ideal para um fã de The Smiths, que cresceu acreditando no que os filmes e músicas diziam sobre o amor e se apaixonar. Já Joseph Gordon-Levitt é um dos pontos altos desse filme. Com uma atuação segura de quem sabe o que está fazendo, Gordon-Levitt não deixa seu personagem tornar-se cansativo em nenhum momento, seja quando está apaixonado ou depressivo.

Um dos pontos fortes do filme é sua trilha sonora riquíssima e heterogênea. Teria que ter um texto inteiro para falar sobre ela. Simon & Garfunkel (dupla que também está presente em Quase Famosos, um dos primeiros filmes de Zooey Deschanel e em A Primeira Noite De Um Homem - que recebe sua homenagem nesse filme quando Tom e Summer vão ao cinema), Poison, The Smiths, Carla Bruni, Feist, Regina Spektor, Pixies (com Here Comes Your Man, cantada de forma imperdível por Joseph Gordon-Levitt em um Karaokê). Até She’s Like The Wind, de Patrick Swayze, aparece no filme.

Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel marcam positivamente o filme com suas atuações

Os outros pontos fortes do filme concentram-se nas ótimas atuações (em especial de Joseph Gordon-Levitt) e em uma direção ousada que brinca com os clichês do gênero e homenageia grandes obras do cinema, como o já citado A Primeira Noite De Um Homem e O Sétimo Selo (A sequência onde Tom vai ao cinema e se vê no lugar das personagens, coisa que pode muito bem acontecer com qualquer um que assista a esse filme, é muito boa), (500) Dias Com Ela é algo novo no meio de tanta mesmice. E depois da cena onde Tom, totalmente desiludido, vai a uma reunião de trabalho, não pude parar de pensar numa frase de um filme que Tom, com certeza, é fã:

“O que veio primeiro? A música ou a miséria? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, ou assistindo a vídeos violentos como se a cultura da violência fosse consumí-las. Ninguém se preocupa se crianças escutam milhares, literalmente milhares de músicas sobre separação, rejeição, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz? Ou era infeliz porque ouvia música pop?”

(500) Dias Com Ela ((500) Days Of Summer): 2009, EUA. Direção: Marc Webb. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Moretz, Matthew Gray. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber. Duração: 95 min.

Notas:

Ronnie Romanini [9.5] Rodrigo Gianesi [9] Paulo do Valle [10]

Nossa média: [9.5]








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