Moulin Rouge – Amor em Vermelho: a espetacular injustiça

30 11 2009

Uma das melhores obras dos últimos tempos foi praticamente ignorada pela academia em 2002

Por Rodrigo Gianesi

Eu, particularmente, não gostava muito de musicais até assistir “Moulin Rouge – Amor em Vermelho”. O filme de Baz Luhrmann mudou completamente meu conceito sobre musicais e me deixou mais aberto para esse tipo de filme, que passei a adorar. O filme conta uma das mais belas histórias de amor já vistas no cinema, foge completamente do que se espera de um filme hollywoodiano, com um roteiro quase revolucionário, longe da intenção de agradar a grande massa. O musical foi completamente injustiçado pela Academia no Oscar de 2002, ganhando apenas o prêmio de melhor direção de arte e de melhor figurino. Perdeu o prêmio de melhor filme para “Uma Mente Brilhante”, filme mais fácil de ser “digerido” pela grande massa por ser mais convencional e conservador, e nem sequer concorreu à melhor trilha sonora, canção original (uma triste injustiça com a maravilhosa “Come What May”) e direção.

"Spetacular, Spetacular"

Moulin Rouge” conta a história de Christian (Ewan McGregor), um poeta boêmio que acredita, acima de tudo, no amor. O poeta se apaixona por Satine (Nicole Kidman), a mais bela cortesã do Moulin Rouge, um clube noturno e bordel de Paris. Como qualquer boa história amor que se preze, os dois enfrentam obstáculos para poderem ficar juntos. Harold Zidler (Jim Broadbent), dono do Moulin Rouge, recebe o patrocínio de um duque (Richard Roxburgh) para produzir uma peça teatral no clube (“Spetacular, Spetacular“, escrita por Christian e estrelada por Satine). A condição que o duque impõe, porém, é que Satine seja dele, e apenas dele. Caso contrário, a propriedade do bordel passaria para o Duque. Com esses empecilhos, Christian e Satine têm de esconder seu romance, genialmente inserido disfarçadamente na peça em questão.

Mesmo com o grande número de músicas no filme, elas não o tornam cansativo, como acontece com muitos musicais. A grande sacada de Luhrmann foi de utilizar obras que variam entre músicas atuais e obras mais antigas ao invés de apenas compor novas canções, com exceção de poucas, como a já mencionada “Come What May”.

Química entre Nicole Kidman e Ewan McGregor é perfeita

A sintonia entre McGregor e Nicole Kidman é inexplicável. Em nenhuma cena a relação dos dois parece forçada ou piegas. As cenas do casal são muito naturais, apesar da intensidade dos sentimentos envolvidos nelas. Grande destaque para a maravilhosa (e triste) cena final do filme. A frase de Christian, “Obrigado por me curar da minha ridícula obsessão pelo amor”, dirigida à Satine, deitada no chão, rebaixada e chorando, arrepia até as pessoas mais insensíveis.

Além das ótimas atuações de Ewan McGregor e Nicole Kidman (que, mais uma vez, se mostraram grandes atores, versáteis e intensos), os donos de papéis secundários também se destacam. Broadbent encarna fervorosamente o papel do cafetão, enquanto Roxburgh faz uma ótima atuação, deixando o ódio e o ciúme do Duque bem claro e de um jeito que, de certa forma, é ridículo.
Um roteiro com reviravoltas emocionantes, repleto de canções marcantes e que transborda sentimentos, desde a paixão até o ódio e o desprezo, fazem este trabalho de Baz Luhrmann uma das mais espetaculares produções dos últimos tempos. Uma prova de que ainda existe criatividade e genialidade na indústria de Hollywood.

Moulin Rouge! – Amor em Vermelho (Moulin Rouge!): 2001, Austrália, EUA. Direção: Baz Luhrmann. Elenco: Ewan McGregor, Nicole Kidman, Jim Broadbent, Richard Roxburgh. Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce. Duração: 127 min.

Notas:

Rodrigo Gianesi [10] Ronnie Romanini [10]

Média parcial: [10]





Candy: paraíso, terra, inferno

24 11 2009

Candy narra a história de um casal que têm suas vidas estragadas pelo vício que os dois têm em comum: a heroína

Por Ronnie Romanini

Dividido em três partes (Paraíso, Terra e Inferno), Candy fala sobre o relacionamento de Candy (Abbie Cornish) com Dan (Heath Ledger) e o de ambos com a heroína, traçando um paralelo interessante entre essas três partes com os três estágios que passa um usuário da droga.

Começando pelo “Paraíso”, o filme mostra o início do relacionamento entre os dois jovens artistas (ela uma aspirante a pintora e ele a poeta). Enquanto Dan não tem uma família por trás, sendo sozinho no mundo, Candy tem toda a superproteção que seus pais, de classe média-alta, podem dar. É quando Candy decide experimentar a heroína que Dan já usava que as coisas começam a mudar na vida de ambos, até então dois jovens promissores em suas carreiras e apaixonados. Essa primeira parte tem seu foco nos efeitos alucinógenos da droga e na sensação de felicidade momentânea que ela traz. Ambos estão felizes e a necessidade cada vez maior de se virar com o pouco dinheiro que possuem, realizando pequenos furtos, parece empolgá-los. É nessa parte que surge Casper (Geoffrey Rush). Professor de Química que usa seu laboratório para produzir drogas e considerado por Dan como um pai que todo mundo gostaria de ter, Casper é quem financia os dois no início, sempre emprestando dinheiro a Dan e às vezes fornecendo a droga ou usando junto.

A situação começa a mudar quando a falta de dinheiro torna-se um problema muito maior do que ambos consideravam. Nessa parte, “Terra”, o filme passa a ser cru e realista, à medida em que retrata a humilhação pela qual Dan e Candy começam a passar em troca do dinheiro para conseguir a droga. Os dois deixam o orgulho de lado e passam a fazer coisas inimagináveis até então, mas que se tornam totalmente naturais em decorrência da necessidade de usar a droga. Dan encara com naturalidade (ou ao menos finge tal naturalidade para não ter que se preocupar com o problema) a solução encontrada por Candy para conseguir o dinheiro.

A terceira parte do filme mostra o “Inferno”. Um acontecimento na vida do casal faz com que eles decidam parar de usar a droga e isolem-se num quarto, com apenas um colchão e uma televisão. Mostrando dia a dia a abstinência da heroína, essa parte torna-se perturbadora e chocante principalmente pela atuação de Abbie Cornish e Heath Ledger que brilham retratando o efeito biológico e psicólogico que a falta da droga causa. A cena em que ambos estão no hospital é estarrecedora.

Longe de ser uma glamourização das drogas, o aspecto negativo do filme reside apenas na comparação com outros filmes que tratam do mesmo assunto. Candy não tem a direção ousada e inovadora de Réquiem para um Sonho e nem é um filme tão original e completo como Trainspotting – Sem Limites. Muito graças ao trio principal de atores (Geoffrey Rush e Heath Ledger estão ótimos como sempre e Abbie Cornish é uma belíssima surpresa, chocando pela força que dá à personagem), Candy trata-se de um bom e triste filme sobre como a dependência química faz o usuário perder qualquer dignidade ou valor pré-concebido.

Candy (Candy): 2006, Austrália. Direção: Neil Armfield. Elenco: Abbie Cornish, Heath Ledger, Geoffrey Rush, Noni Hazlehurst, Tony Martin. Roteiro: Neil Armfield e Luke Davies. Duração: 116 min.

Notas:

Ronnie Romanini [7.5] Rodrigo Gianesi [7.5] Paulo do Valle [10]

Nossa média: [8.3]








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.