Candy narra a história de um casal que têm suas vidas estragadas pelo vício que os dois têm em comum: a heroína
Por Ronnie Romanini
Dividido em três partes (Paraíso, Terra e Inferno), Candy fala sobre o relacionamento de Candy (Abbie Cornish) com Dan (Heath Ledger) e o de ambos com a heroína, traçando um paralelo interessante entre essas três partes com os três estágios que passa um usuário da droga.
Começando pelo “Paraíso”, o filme mostra o início do relacionamento entre os dois jovens artistas (ela uma aspirante a pintora e ele a poeta). Enquanto Dan não tem uma família por trás, sendo sozinho no mundo, Candy tem toda a superproteção que seus pais, de classe média-alta, podem dar. É quando Candy decide experimentar a heroína que Dan já usava que as coisas começam a mudar na vida de ambos, até então dois jovens promissores em suas carreiras e apaixonados. Essa primeira parte tem seu foco nos efeitos alucinógenos da droga e na sensação de felicidade momentânea que ela traz. Ambos estão felizes e a necessidade cada vez maior de se virar com o pouco dinheiro que possuem, realizando pequenos furtos, parece empolgá-los. É nessa parte que surge Casper (Geoffrey Rush). Professor de Química que usa seu laboratório para produzir drogas e considerado por Dan como um pai que todo mundo gostaria de ter, Casper é quem financia os dois no início, sempre emprestando dinheiro a Dan e às vezes fornecendo a droga ou usando junto.
A situação começa a mudar quando a falta de dinheiro torna-se um problema muito maior do que ambos consideravam. Nessa parte, “Terra”, o filme passa a ser cru e realista, à medida em que retrata a humilhação pela qual Dan e Candy começam a passar em troca do dinheiro para conseguir a droga. Os dois deixam o orgulho de lado e passam a fazer coisas inimagináveis até então, mas que se tornam totalmente naturais em decorrência da necessidade de usar a droga. Dan encara com naturalidade (ou ao menos finge tal naturalidade para não ter que se preocupar com o problema) a solução encontrada por Candy para conseguir o dinheiro.
A terceira parte do filme mostra o “Inferno”. Um acontecimento na vida do casal faz com que eles decidam parar de usar a droga e isolem-se num quarto, com apenas um colchão e uma televisão. Mostrando dia a dia a abstinência da heroína, essa parte torna-se perturbadora e chocante principalmente pela atuação de Abbie Cornish e Heath Ledger que brilham retratando o efeito biológico e psicólogico que a falta da droga causa. A cena em que ambos estão no hospital é estarrecedora.
Longe de ser uma glamourização das drogas, o aspecto negativo do filme reside apenas na comparação com outros filmes que tratam do mesmo assunto. Candy não tem a direção ousada e inovadora de Réquiem para um Sonho e nem é um filme tão original e completo como Trainspotting – Sem Limites. Muito graças ao trio principal de atores (Geoffrey Rush e Heath Ledger estão ótimos como sempre e Abbie Cornish é uma belíssima surpresa, chocando pela força que dá à personagem), Candy trata-se de um bom e triste filme sobre como a dependência química faz o usuário perder qualquer dignidade ou valor pré-concebido.
Candy (Candy): 2006, Austrália. Direção: Neil Armfield. Elenco: Abbie Cornish, Heath Ledger, Geoffrey Rush, Noni Hazlehurst, Tony Martin. Roteiro: Neil Armfield e Luke Davies. Duração: 116 min.
Notas:
Ronnie Romanini [7.5] Rodrigo Gianesi [7.5] Paulo do Valle [10]
Nossa média: [8.3]

