Candy: paraíso, terra, inferno

24 11 2009

Candy narra a história de um casal que têm suas vidas estragadas pelo vício que os dois têm em comum: a heroína

Por Ronnie Romanini

Dividido em três partes (Paraíso, Terra e Inferno), Candy fala sobre o relacionamento de Candy (Abbie Cornish) com Dan (Heath Ledger) e o de ambos com a heroína, traçando um paralelo interessante entre essas três partes com os três estágios que passa um usuário da droga.

Começando pelo “Paraíso”, o filme mostra o início do relacionamento entre os dois jovens artistas (ela uma aspirante a pintora e ele a poeta). Enquanto Dan não tem uma família por trás, sendo sozinho no mundo, Candy tem toda a superproteção que seus pais, de classe média-alta, podem dar. É quando Candy decide experimentar a heroína que Dan já usava que as coisas começam a mudar na vida de ambos, até então dois jovens promissores em suas carreiras e apaixonados. Essa primeira parte tem seu foco nos efeitos alucinógenos da droga e na sensação de felicidade momentânea que ela traz. Ambos estão felizes e a necessidade cada vez maior de se virar com o pouco dinheiro que possuem, realizando pequenos furtos, parece empolgá-los. É nessa parte que surge Casper (Geoffrey Rush). Professor de Química que usa seu laboratório para produzir drogas e considerado por Dan como um pai que todo mundo gostaria de ter, Casper é quem financia os dois no início, sempre emprestando dinheiro a Dan e às vezes fornecendo a droga ou usando junto.

A situação começa a mudar quando a falta de dinheiro torna-se um problema muito maior do que ambos consideravam. Nessa parte, “Terra”, o filme passa a ser cru e realista, à medida em que retrata a humilhação pela qual Dan e Candy começam a passar em troca do dinheiro para conseguir a droga. Os dois deixam o orgulho de lado e passam a fazer coisas inimagináveis até então, mas que se tornam totalmente naturais em decorrência da necessidade de usar a droga. Dan encara com naturalidade (ou ao menos finge tal naturalidade para não ter que se preocupar com o problema) a solução encontrada por Candy para conseguir o dinheiro.

A terceira parte do filme mostra o “Inferno”. Um acontecimento na vida do casal faz com que eles decidam parar de usar a droga e isolem-se num quarto, com apenas um colchão e uma televisão. Mostrando dia a dia a abstinência da heroína, essa parte torna-se perturbadora e chocante principalmente pela atuação de Abbie Cornish e Heath Ledger que brilham retratando o efeito biológico e psicólogico que a falta da droga causa. A cena em que ambos estão no hospital é estarrecedora.

Longe de ser uma glamourização das drogas, o aspecto negativo do filme reside apenas na comparação com outros filmes que tratam do mesmo assunto. Candy não tem a direção ousada e inovadora de Réquiem para um Sonho e nem é um filme tão original e completo como Trainspotting – Sem Limites. Muito graças ao trio principal de atores (Geoffrey Rush e Heath Ledger estão ótimos como sempre e Abbie Cornish é uma belíssima surpresa, chocando pela força que dá à personagem), Candy trata-se de um bom e triste filme sobre como a dependência química faz o usuário perder qualquer dignidade ou valor pré-concebido.

Candy (Candy): 2006, Austrália. Direção: Neil Armfield. Elenco: Abbie Cornish, Heath Ledger, Geoffrey Rush, Noni Hazlehurst, Tony Martin. Roteiro: Neil Armfield e Luke Davies. Duração: 116 min.

Notas:

Ronnie Romanini [7.5] Rodrigo Gianesi [7.5] Paulo do Valle [10]

Nossa média: [8.3]





Trainspotting – Sem Limites: espetacularmente insano

17 11 2009

Considerado um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos, Trainspotting – Sem Limites mostra  a vida de Mark Renton e seus amigos envolvidos com drogas em Edimburgo

Por Rodrigo Gianesi

Baseado no romance de Irvine Welsh, Trainspotting – Sem Limites é uma descarga de adrenalina misturada com uma viagem intensa pela cabeça perturbada do jovem escocês Mark Renton (Ewan McGregor) e seus amigos, mostrando suas vidas imersas no mundo da heroína, como uma fuga do cotidiano monótono da cidade de Edimburgo.

Dirigido por Danny Boyle, o filme já começa com uma seqüencia fantástica: Renton e seu amigo Spud (Ewen Bremner) correm fugindo da polícia enquanto se ouve um monólogo sensacional de Renton: “…escolha seu futuro, escolha a vida. Eu escolhi não escolher a vida. Eu escolhi outra coisa. Os motivos? Não existem motivos. Pra que você precisa de motivos quando você tem heroína?”.

Cenas transitam entre a realidade e as alucinações de Renton

Boyle explora as alucinações de Mark descritas no livro de Welsh com muita fidelidade, mas mais do que isso, passa uma mensagem completamente adversa ao que se vê normalmente no cinema: não é um filme moralista, que apenas mostra que as drogas vão destruir sua vida. Pelo contrário, Mark tem uma vida relativamente feliz quando está envolvido com heroína. Seu pesadelo aparece apenas quando ele tenta parar de usar, o que acontece mais de uma vez no filme, sem sucesso.

Boyle, no entanto, peca em deixar algumas passagens do livro de fora do filme, e até alguns personagens. Porém, mesmo para quem leu o livro, o filme continua sendo uma adaptação muito próxima e bem feita. Welsh, o autor do livro, até faz uma ponta no filme no papel de Mikey Forrester, um traficante ocasional.

Diálogos interessantes, cenas que transitam entre o real e as alucinações, idéias não convencionais, uma dose de humor equilibrada com uma dose de drama, brilhantes atuações de Ewan McGregor e Robert Carlyle (no papel do psicopata Francis Begbie) e uma trilha sonora fantástica que conta com Iggy Pop e Underworld fazem deste filme essencial de ser visto por qualquer apreciador da sétima arte.

Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting): 1996, Reino Unido. Direção: Danny Boyle. Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Kelly Macdonald. Roteiro: Irvine Welsh, John Hodge. Duração: 94 min.

Baseado no livro Trainspotting, de Irvine Welsh.

Notas:

Rodrigo Gianesi [10] ; Ronnie Romanini [8.5] ; Paulo do Valle [8.5]

Nossa Média: [9.0]








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